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Autor: Julio Murilo Retzlaff

Colaboradores: Abel Beiger, Carolini Valle e Francielly Jorge

Introdução

Os acidentes com animais peçonhentos são aqueles causados por animais que produzem veneno e o secretam através de estruturas inoculadoras especializadas, como por exemplo, presas, ferrões e espinhos. Dentre os vários animais peçonhentos, destacamos algumas espécies de serpentes, escorpiões, aranhas, abelhas, vespas, lagartas, formigas, arraias, entre outros. Estes acidentes são importantes na prática médica, uma vez que ocorrem com relativa freqüência, e muitas vezes acarretam em um quadro clínico de bastante gravidade, necessitando de um atendimento rápido e eficaz. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de acidentes com animais peçonhentos cresceu 32,7% se compararmos os anos de 2003 e 2009. Em 2009 foram registrados 309 óbitos por acidentes com animais peçonhentos no Brasil.

Acidentes com Serpentes

No Brasil, os acidentes ofídicos são causados basicamente por quatro gêneros de serpentes: Bothrops, Crotalus, Lachesis e Micrurus. Enquanto os gêneros Bothrops e Micrurus são encontrados em todas as regiões do país, o gênero Crotalus é comum das regiões Sul e Sudeste, e o gênero Lachesis é freqüente na região Norte.

Acidente Botrópico

Jararaca

Fonte: http://conhecendoacaatinga.blogspot.com

As serpentes do gênero Bothrops (ex. jararaca, jaracuçu, urutu, entre outras) são as mais relevantes em termos epidemiológicos, uma vez que são responsáveis por aproximadamente 87% dos casos registrados de acidentes ofídicos.O veneno botrópico é de composição essencialmente protéica e apresenta três atividades fundamentais:

• Ação Proteolítica: responsável pelas manifestações inflamatórias agudas na região da picada. O veneno atua liberando diversas substâncias estimuladoras da resposta inflamatória local (ex. prostaglandinas e bradicininas) que causam dor intensa, eritema (“vermelhidão”), edema (inchaço), equimose (mancha escura decorrente de extravasamento de sangue no tecido), bolhas e necrose (morte celular ou tecidual de um organismo vivo).

Acidente

Fonte: http://cobrasbrasileiras.com.br

• Ação Coagulante: decorrente da ativação de fatores da coagulação sangüínea (principalmente do fator X e da protrombina), do estímulo à formação de fibrina a partir do fibrinogênio e de alterações na função e número de plaquetas. Essas ações levam a uma depleção dos fatores de coagulação, podendo acarretar em incoagulabilidade sangüínea.

• Ação Hemorrágica: ocorre pela ação de substâncias chamadas hemorraginas que levam a alterações na parede dos vasos sanguíneos, provocando hemorragias em diversos locais do organismo.

Acidente Crotálico

As serpentes do gênero Crotalus são conhecidas como cascavel, sendo responsáveis por cerca de 9% dos acidentes provocados por cobras. O acidente crotálico é o que apresenta o maior coeficiente de letalidade (proporção de óbitos ocorridos entre os indivíduos atacados por essas cobras) dentre os acidentes provocados por serpentes. O veneno crotálico é uma mistura de proteínas e polipeptídeos, provocando seus efeitos através de três ações básicas:
Cascavel

Fonte: http://caisdegaia.blogspot.com

• Ação Neurotóxica: decorrente da atividade da crotoxina. A crotoxina é uma neurotoxina que atua nas terminações nervosas motoras, impedindo a liberação do neurotransmissor acetilcolina, levando a um bloqueio neuromuscular, provocando paralisia motora e respiratória nos pacientes.

• Ação Miotóxica: acredita-se que a atividade miotóxica seja ocasionada pela ação de duas substâncias: a crotoxina e a crotamina. Essas substâncias provocam lesões nas fibras musculares esqueléticas de todo o corpo, processo conhecido como rabdomiólise, resultando em mioglobinúria (presença da hemoproteína muscular mioglobina na urina) e dores musculares generalizadas.

• Ação Coagulante: um componente do veneno atua como trombina, convertendo o fibrinogênio em fibrina. O consumo do fibrinogênio leva a um quadro de distúrbio coagulatório, caracterizado pela incoagulabilidade sangüínea.

Acidente Laquético

Provocado por serpentes do gênero Lachesis, cuja espécie mais conhecida é a surucucu, é responsável por apenas 3% dos acidentes ofídicos registrados no país.
Surucucu

http://www.flickr.com/photos

Dificuldades na identificação das serpentes e da notificação dos casos (que predominantemente ocorrem em áreas florestais isoladas e pouco habitadas) podem contribuir para o pequeno número de ocorrências relacionadas ao gênero.

Em termos gerais, o veneno laquético apresenta as mesmas ações descritas para o veneno botrópico (ação proteolítica, ação coagulante e ação hemorrágica). Além disso, o veneno laquético também apresenta uma atividade neurotóxica que provoca estimulação do nervo vago, podendo causar diarréia, bradicardia (freqüência cardíaca diminuída), hipotensão (pressão arterial baixa) ou choque.

Acidente Elapídico

A serpente coral verdadeira é a espécie mais conhecidas do gênero Micrurus. Somente 1% dos acidentes ofídicos registrados é provocado por essas serpentes. O baixo número de acidentes está relacionado com alguns fatores que dificultam a ocorrência de acidentes em humanos. Entre eles citamos: os hábitos da espécie, a dentição proteróglifa (presas pequenas e localizadas anteriormente, dificultando a inoculação do veneno) e a pequena abertura bucal.

Coral

Fonte:http://banco.agenciaoglobo.com.br

Os venenos das cobras corais são misturas biológicas complexas (predominantemente proteínas e polipeptídeos) que provocam seus efeitos neurotóxicos, com manifestações paralíticas, através de duas formas de ação na fenda sináptica (espaço anatômico, observado no tecido nervoso, entre um axônio do neurônio motor e a célula muscular esquelética):

• Ação pós-sináptica: competem com a acetilcolina pelos receptores colinérgicos presentes na junção neuromuscular de nervos motores.

• Ação pré-sináptica: bloqueiam a liberação de acetilcolina pelas terminações axônicas, impedindo o disparo do potencial de ação.

Além das ações neurotóxicas, o veneno também apresenta leve ação hemorrágica e cardiovascular (efeito hipotensivo).

Acidentes com Escorpiões

Os acidentes com escorpiões são muito importantes, pois ocorrem com uma freqüência ainda maior que os acidentes com serpentes. Segundo dados do Ministério da Saúde, somente em 2009 ocorreram mais de 45.000 acidentes com escorpiões. Além disso, os acidentes com escorpiões apresentam um grande potencial de gravidade.

No Brasil, os acidentes humanos com escorpiões ocorrem pela ação de três espécies: Tityus serrulatus (escorpião amarelo), Tityus bahiensis (escorpião marrom) e Tityus stigmurus. O escorpião amarelo é responsável pelos casos mais graves.

Escorpião-amarelo

Fonte: http://petmag.uol.com.br

O veneno dos escorpiões é composto essencialmente de proteínas, além de uma pequena fração de aminoácidos e sais. A inoculação do veneno pode provocar algumas reações inflamatórias locais como dor, inchaço, vermelhidão, sudorese e ereção dos pêlos. As manifestações sistêmicas estão relacionadas com a ação do veneno sobre os canais de sódio, com conseqüente liberação de adrenalina, noradrenalina e acetilcolina, provocando uma série de manifestações clínicas: manifestações gastrintestinais (náuseas, vômitos, diarréia), manifestações respiratórias (tosse, espirros, respiração rápida), manifestações cardiocirculatórias (aumento da freqüência cardíaca, arritmias cardíacas, hipo ou hipertensão) e manifestações neurológicas (tremores, contrações musculares, agitação).

Acidentes com Aranhas

Conforme dados do Ministério da Saúde, os acidentes com aranhas são o terceiro tipo de acidente mais freqüente, ficando atrás dos acidentes com escorpiões e serpentes. Os três gêneros de aranhas mais relevantes em termos médicos no Brasil são: Phoneutria (aranha armadeira), Loxoceles (aranha-marrom) e Latrodectus (viúva-negra).

Os acidentes provocados pela aranha armadeira (Phoneutria) raramente apresentam gravidade. A maioria dos registros dos acidentes causados por essas aranhas concentram-se no estado de São Paulo. A atuação do veneno baseia-se na ativação dos canais de sódio presentes nas fibras musculares e terminações nervosas, levando a liberação de adrenalina, noradrenalina e acetilcolina. Como resultado da picada, observa-se o desenvolvimento de um processo inflamatório local, caracterizado por dor (em alguns casos extremamente intensa), inchaço, sudorese e perda da sensibilidade local.

Acidente aranha-marrom

Fonte: http://www.cabuloso.com

Os acidentes com Loxoceles são bastante freqüentes no sul do Brasil, principalmente no estado do Paraná. As duas ações básicas do veneno das aranhas-marrons seriam: a dermonecrose (necrose da pele) caracterizada por intensa reação inflamatória no local da picada, levando ao surgimento de dor, eritema (“vermelhidão”), inchaço, podendo evoluir para necrose e ulceração; e a hemólise intravascular (destruição anormal de hemácias nos vasos sanguíneos), com anemia aguda, icterícia (coloração amarelada de pele e mucosas) e em alguns casos sangramento. Algumas reações sistêmicas incluem febre, calafrios, mal-estar, fraqueza, náuseas, vômitos, entre outros.

As aranhas do gênero Latrodectus são encontradas principalmente no litoral nordestino. Os acidentes com essas aranhas caracterizam-se por reações dolorosas no local da ferida (efeito do veneno nas terminações nervosas sensitivas); além de um efeito sobre o sistema nervoso autônomo que leva a liberação de vários neurotransmissores, como a adrenalina e a acetilcolina, provocando diversos sintomas sistêmicos: sudorese, tremores, dores articulares, hipertensão, ansiedade, cefaléia, entre outros.

Outros Animais Peçonhentos

Embora menos freqüentes, os acidentes com lagartas (principalmente os acidentes causados pelas lagartas do gênero Lonomia), abelhas, vespas, formigas, arraias, entre outros, também apresentam importância clínica e não devem ser negligenciados.

Cuidados e Prevenção

• Evitar andar descalço em locais de risco;

• Usar luvas de couro quando for executar algum trabalho manual em ambientes que podem servir de abrigo para os animais;

• Estar atento aos locais de passagem ou caminhada;

• Evitar o acúmulo de lixo nos quintais, evitando assim a presença de roedores que podem atrair cobras e outros predadores;

• Evitar o acúmulo de entulho, tijolos, madeira e outros materiais que possam servir de abrigo aos animais;

• No caso de aranhas e escorpiões, é importante verificar sapatos e roupas antes de usá-los;

• Usar mecanismos que impeça a entrada desses animais no interior das residências (uso de telas, vedar soleiras de janelas, fechar buracos nos forros ou assoalhos, entre outros);

• Deve-se ter atenção especial aos locais onde as crianças brincam;

• Usar equipamentos de proteção quando for realizar alguma atividade em ambientes com vegetação abundante;

• Evitar pegar esses animais com as mãos, mesmo se estiverem mortos.

Primeiros Socorros

• Lavar o local da picada utilizando apenas água e sabão;

• Manter o acidentado deitado e calmo, evitando que ele se movimente em demasia;

• Mantenha o local da picada em uma posição elevada, principalmente braços ou pernas;

• Retire anéis e outros objetos que possam prejudicar a circulação sangüínea;

• Procurar o serviço de saúde o mais rápido possível;

• Quando possível, levar o animal que provocou o acidente para identificação;

• Não cortar, perfurar ou espremer o local da ferida;

• Não fazer torniquete ou garrote, pois isso pode prejudicar a circulação e pode provocar necrose;

• Não oferecer bebidas alcoólicas, querosene ou outras substâncias tóxicas ao acidentado;

• Não colocar folhas, pó de café ou outras substâncias sobre o local da picada, pois elas podem provocar infecções;

• De forma alguma faça sucção no local da ferida, pois é impossível retirar o veneno do corpo.



FONTES BIBLIOGRÁFICAS

1. AZEVEDO-MARQUES, Marisa M. de et al. Acidentes por animais peçonhentos: serpentes peçonhentas. Disponível em: <http://www.fmrp.usp.br/revista/2003/36n2e4/40animais_peconhetos_serpentes.pdf> Acesso em; 13 nov. 2010.

2. BERNARDE, Paulo Sérgio. Acidentes ofídicos. Disponível em: <http://paulobernarde.sites.uol.com.br/OfidismoPauloBernarde.pdf> Acesso em: 13 nov. 2010.

3. BRASIL. Ministério da Saúde. Acidentes com animais peçonhentos crescem quase 33% nos últimos seis anos. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/ portal/aplicacoes/noticias/default.cfm?pg=dspDetalheNoticia&id_area=1498&CO_NOTICIA=11570> Acesso em; 13 nov. 2010.

4. BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, 2001.

5. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Prevenção de acidentes com animais peçonhentos. Disponível em: <http://www.fundacentro.gov.br/ ARQUIVOS/PUBLICACAO/l/Preven%C3%A7%C3%A3o%20de%20Acidentes%20com%20Animais%20Pe%C3%A7onhentos.pdf> Acesso em: 14 nov. 2010.

6. CARDOSO, João Luiz Costa et al. Animais peçonhentos no Brasil: biologia, clínica e terapêutica dos acidentes. São Paulo: Sarvier, 2003.

7. CUPO, Palmira et al. Acidentes por animais peçonhentos: escorpiões e aranhas. Disponível em: <http://www.fmrp.usp.br/revista/2003/36n2e4/ 41acidentes_animais_peconhentos_escorpioes_aranhas.pdf> Acesso em: 13 nov. 2010.

8. GOLDMAN, Lee; AUSIELLO, Dennis. Cecil Medicina. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.


LINKS RELACIONADOS

Organização Mundial da Saúde (em inglês) [1]

CDC - Cobras Venenosas (em inglês) [2]

Instituto Vital Brazil [3]

Instituto Butantan [4]

Relação de hospitais de referência e locais de aplicação de antivenenos [5]

Animais peçonhentos [6]

Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina [7]

O fantástico mundo das serpentes [8]



--Julio Murilo Retzlaff 16h11min de 2 de dezembro de 2010 (UTC)

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